Dia Internacional da Mulher

Ora, hoje celebra-se o Dia Internacional da Mulher e, invariavelmente, o meu feed encontra-se cheio de bonitas mensagens para ‘as mulheres que são um máximo’; para as mulheres que ‘são as máióres’ (sim, assim com acentos e tudo); ‘super-heroínas’. Cheia de fotos dos bonitos ramos de flores e das caixas de bombons que os bonitos homens da nossa vida nos dão.

E isto é tudo muito bonito. #sqn

No dia 8 de Março, toda a gente se lembra de que é tão lindo e tão bom ser mulher. Só que há um pequeno problema relaccionado com esta questão: não é assim tão bom ser-se mulher.

Estamos em 2016 e, apesar de neste dia as mulheres serem corridas a elogios, no resto do ano, muitas delas são corridas à pancada – ou a violência psicológica. De acordo com a APAV, em 2014, registaram-se 17.786 crimes de violência doméstica. Em 82,3% dos casos a vítima era uma mulher.

Estamos em 2016 e, de acordo com dados da Eurostat, em Portugal as mulheres continuam a ganhar, em média, menos 14,5% do que os homens e têm menos 7,1% de hipóteses de conseguir arranjar emprego na sua área de formação. Em 2014, as mulheres corriam mais risco de atingir o nível de pobreza (de acordo com dados do Eurostat, mais 23,8% do que os homens). Estamos em 2016 e as mulheres continuam a ser forçadas a assinar contratos em que se comprometem a não engravidar durante 5 anos.

Estamos em 2016 e as mulheres que não querem ter filhos continuam a ser olhadas de lado; mas as que o querem também.Aquelas que querem fazer uma cesariana em vez de parto natural são olhadas de lado, e o inverso também. Se quer amamentar, está mal; se não quer, é porque não sabe a importância do leite materno para o bebé. Estamos em 2016 e as mulheres continuam a ter a responsabilidade sobre a maioria do trabalho doméstico – a acumular com o trabalho que têm fora de casa e, como já mencionado acima, a receber menos por isso.

Estamos em 2016 e o aborto continua a ser ilegal na maior parte dos países do mundo, enquanto que a mutilação genital feminina e os casamentos forçados e prematuros continuam a ser uma realidade.

Estamos em 2016, e uma mulher continua a ser julgada quando é violada ou assediada. Perguntam-lhe ‘O que é que levavas vestido?’; ‘Porque é que estavas na rua àquelas horas?’; ‘Não sabes que é perigoso andar ali sozinha?’, em vez de perguntarem porque é que as penas não são mais pesadas para os violadores, que podem pagar a sua liberdade.

Estamos em 2016, e continuam a dizer-nos, a nós mulheres, que ‘nos pomos a jeito’ quando viajamos sozinhas. Enquanto criticamos no nosso sofá ocidental o uso livre do niqab ou do hijab, fechamos os olhos à culpabilização da vítima. Continuamos a julgar as mulheres por pensarem que são independentes. Continuamos a aceitar que existam códigos de conduta sobre o que vestir e não vestir; qual o comprimento que uma saia deve ter ou o comportamento que ela deve ter face a situações de assédio. ‘Menina de respeito ignora’. Menino de respeito não assedia.

Estamos em 2016 e continuam a querer que nós, mulheres, acreditemos que já conquistámos tudo o que havia para conquistar. Mas (ainda) não conquistámos. Em vez de oferecerem flores e bombons no Dia Internacional da Mulher – e criticarem que não há um Dia Internacional do Homem, porque o há, e celebra-se a dia 19 de Novembro; agora pensem porque é que não é tão ‘aclamado’ quanto o Dia da Mulher – pensem em cada um destes pontos e em todos aqueles que não referi. E mudem, por favor. Para que um dia o Dia da Mulher seja apenas para isso: oferecer flores e bombons.

Anúncios

2 thoughts on “Dia Internacional da Mulher

  1. INTERNET diz:

    Por amor de Deus parem de propagar mentiras sobre a discrepância salarial. O próprio estudo do Eurostat de que se fartam de citar diz na primeira página:

    “This discrepancy should primarily be interpreted as the result of comparing averages for two populations of employees with very different characteristics: women and men”

    Ou seja, não podem comparar o salário de 100 mulheres que trabalhem como lojistas com 100 homens CEO’s e dizer que os homens ganham milhões e as mulheres umas centenas de euros.

    Aliás, se uma empresa pudesse poupar 14 ou 20% como afirmam ao contratar apenas mulheres, porque não o faria? Afinal, se essa percentagem fosse real seria financeiramente mais viável contratar sempre mulheres.

    A verdade é que pode haver discriminação. Contudo, as razões que explicam a discrepância salarial mais correctamente são:

    1) Filhos D:

    “working women are on average younger: 44% are less than 30 years old compared to 32% of men. This is due to the fact that there are less of the older generation of women working and that many women stop working to raise children and may only restart after several years, if at all. The consequence of this dissimilar age structure is that women on average have less seniority and less of an opportunity to be in management positions. This, in turn, makes an impact on their average salary level.”

    (http://ec.europa.eu/eurostat/documents/3433488/5257256/CA-NK-99-006-EN.PDF/eb4dbbc2-bfc8-4af7-b7f5-83595be12813)

    2) A falta de capacidade de negociação salarial no sexo feminino:

    “42 percent of the male participants and 28 percent of the female participants initiate a negotiation.”

    (http://www.ne.su.se/polopoly_fs/1.99257.1346412310!/menu/standard/file/anna_sandberg.pdf)

    Porque é que eu digo mais correctamente?

    Porque ao criarem um “inimigo invisível” só estão a causar mais mal do que bem. Estão a dizer às mulheres e às meninas que existe “um sistema”: forças para além do seu controlo que lhes querem fazer mal. Assim, ao criarem um boogeyman nem sequer lhes dão oportunidade de verdadeiramente ganhar controlo sob a sua vida e serem bem sucedidas.

    Feliz dia da mulher!

    • vanessasjr diz:

      Se a discrepância salarial fosse um mito, não continuaria a aparecer em inúmeros estudos e estatísticas, do Eurostat à OCDE. E, caso não saiba, a análise estatístia analisa SEMPRE clusters de população igual. Ou seja, se vão analisar homens e mulheres no seu todo, dividem-nos em clusters de idade (normalmente, 15-24; 25-40; 41-55; 56-65; +65), por profissões (ou seja, comparam homens CEO com mulheres CEO – que também são menos do que os homens, por vários factores, mas já lá vamos – homens lojistas com mulheres lojistas, e por aí adiante), por localização geográfica (homens de Lisboa com mulheres de Lisboa, homens de Londres com mulheres de Londres, etc.). Portanto, não, não se compara ‘o salário de homens CEO com o salário de mulheres lojistas’.
      Em relação ao segundo ponto, ‘Aliás, se uma empresa pudesse poupar 14 ou 20% como afirmam ao contratar apenas mulheres, porque não o faria? Afinal, se essa percentagem fosse real seria financeiramente mais viável contratar sempre mulheres.’, é possível olhar para qualquer empresa e verificar que, efectivamente, a massa laboral é, principalmente, constituída por mulheres. Num hospital, a maioria dos enfermeiros são mulheres; numa escola, a maioria dos professores são mulheres; em media, a maioria dos jornalistas/accounts são mulheres. No entanto, isto não se reflecte quando se chegam aos cargos de direcção (financeira, executiva, recursos humanos, etc.), onde a maioria dos cargos são ocupados por homens. E porquê? Porque, uma vez que são as mulheres que têm os filhos (= parir) e, consequentemente, têm mais responsabilidades sobre eles (porque, tal como mencionei, apesar da sua forte presença no mercado de trabalho, continuam a ser responsáveis pela maioria do trabalho doméstico), são consideradas ‘um investimento de risco’, ou seja, um homem CEO pode dedicar-se mais à sua actividade laboral porque não tem de ir buscar os filhos à escola – há-de ter uma mulher que o faça. Um homem CFO pode dedicar-se mais à sua actividade laboral porque não tem de tirar baixa quando os filhos estão com varicela – há-de ter uma mulher que o faça. E podia ficar nisto de dar exemplos o resto do dia.
      Portanto, aqui é possível encontrar outro factor de desigualdade, que é perpetuado pela sociedade: é da responsabilidade da mulher cuidar dos filhos. ‘Ah, mas também há homens que o fazem’. Claro que há; mas continuam a ser uma minoria face aos homens que não o fazem. E, querendo ou não, isto influencia largamente o papel da mulher no mercado de trabalho e a sua capacidade de conseguir progredir na carreira. E muita delas ‘não deixam os empregos para cuidar dos filhos’; são forçadas a abandonar esses empregos porque decidiram ter um filho. Apesar de isto ser ilegal, é uma realidade que continua a acontecer mas que, por vir camuflada por outros motivos (não há possibilidade de renovar o contrato; a funcionária não mostrou competências para a função a designar; ou até mesmo o velho truque de arranjar forma de colocar um processo disciplinar e um despedimento por justa causa – coisa que acontece não só neste tipo de casos, mas também noutras situações laborais, tanto a homens como mulheres, sobretudo em contexto de crise) não aparece nas estatísticas.
      Em relação à capacidade de negociação salarial, é uma realidade que as mulheres não têm tanta capacidade de negociação salarial. Tal como os jovens (até aos 24 anos, que se está perigosamente a alastrar até aos 30). E porquê? Por serem clusters que estão permanentemente em risco de trabalho precário. Da mesma forma que dizem a um jovem recém-licenciado que está desesperado para arranjar experiência (o velho ciclo de ‘não arranjo trabalho porque não tenho experiência’/’não tenho experiência porque não arranjo trabalho’) que se ele não quer aceitar aquele estágio não remunerado ou muito mal pago ‘há quem queira’, o mesmo se passa com as mulheres. Uma mulher que num processo de selecção diga ‘não aceito trabalhar por este salário’ leva exactamente com a mesma resposta: ‘há quem queira’, especialmente num contexto de crise como aquele que se vive na UE (e no mundo, if that really matters).

      Portanto, existe sim esse ‘inimigo invisível’, esse ‘sistema cujas forças estão para além do nosso controlo’. Tal como expliquei acima, todos os anos, sempre que saem estes dados e estas questões há sempre alguém que diz ‘não é assim’; ‘as razões são outras’; ‘as mulheres já conquistaram tudo o que havia para conquistar’. E, enquanto mulher, eu vejo que as coisas não são assim. Enquanto eu vir o meu colega homem a ser aumentado, enquanto a mim me dizem que ‘não há dinheiro para aumentos salariais’; enquanto eu vir que, apesar de a população feminina em Portugal constituir a maioria da população residente, existem menos de 20% de mulheres no Governo; enquanto eu souber que me impedem de decidir sobre ter ou não ter filhos – uma decisão que só a mim me diz respeito – e que isso influencia a minha carreira; etc., etc. vou continuar a bater-me contra esse sistema e vou continuar a dizer que não está correcto, independentemente de todas as razões ‘mais correctas’ que me possam apresentar.

Responder

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s